Em fevereiro de 2025, Andrej Karpathy, criador do termo vibe coding, publicou um tweet que ele mesmo descreveu como "um pensamento de banho que disparei sem pensar." O conceito era simples: você descreve o que quer em linguagem natural, a IA constrói e itera, e você esquece que o código existe. O termo ganhou vida própria — virou a palavra do ano de 2025 no dicionário Collins, ganhou artigo na Wikipedia e passou a definir como uma geração inteira pensa sobre desenvolvimento com IA. Um ano depois, Karpathy escreveu sobre o aniversário do conceito. O que ele disse muda a conversa.


O que Karpathy disse de fato: vibe coding era para protótipos, não para produção

Nas palavras do próprio Karpathy, ao revisitar o conceito:

"Na época, a capacidade dos LLMs era baixa o suficiente para que o vibe coding fosse usado principalmente em projetos descartáveis, demos e explorações. Era divertido e quase funcionava."

Projetos descartáveis. Quase funcionava.

Não é o que a maioria das pessoas entendeu pelo caminho. O frame "esqueça que o código existe" foi aplicado em sistemas com usuários reais, dados reais e regras de negócio que custam dinheiro quando falham. A linha entre demo e produto sumiu — e o vibe coding atravessou junto.

Agentic engineering: o que Karpathy propõe para quem trabalha com código de verdade

Para o que está acontecendo agora com profissionais que levam desenvolvimento a sério, Karpathy propôs outro nome: agentic engineering. A diferença que ele desenha é precisa: você não escreve o código 99% do tempo — você orquestra agentes que fazem isso e age como supervisão. A palavra engineering é intencional: há uma arte, uma ciência, uma profundidade que se aprende e se desenvolve.

Não é sobre esquecer que o código existe. É sobre entender o código bem o suficiente para saber quando a IA errou.

Esse é o mesmo princípio que usamos quando implementamos agentes de IA para empresas: contexto bem definido, arquitetura prévia, validação humana nas decisões que custam caro quando falham.


Por que engenheiros sênior entregam 2,5x mais código de IA do que juniores

A Fastly entrevistou 800 desenvolvedores sobre o uso de IA no trabalho. O resultado vai na direção contrária da narrativa de equalização que domina a conversa:

2,5×

Engenheiros sênior colocam em produção 2,5 vezes mais código gerado por IA do que seus pares juniores.

Fastly — Senior Developers Ship 2.5x More AI Code Than Juniors

Não porque os juniores não sabem usar os modelos. Às vezes sabem até melhor. O gap não está na geração do código — está na validação.

Quando a IA entrega mil linhas que compilam, passam nos testes e parecem corretas, o sênior identifica a consulta escondida que vai travar o banco sob volume, o ciclo de dependência que vai explodir daqui a três meses, a lógica de negócio tecnicamente certa mas operacionalmente errada. O junior aceita — porque ainda não tem o histórico de ter visto essas coisas falharem em produção.

A IA reduziu o custo de criar código para quase zero. O custo de avaliar o que foi criado ficou com quem tem anos de contexto. E esse contexto só se constrói fazendo, errando, consertando.


O colapso silencioso do desenvolvedor júnior: o que os dados mostram

Os números são diretos:

−20%

Emprego para desenvolvedores entre 22 e 25 anos desde o pico de 2022, segundo o Stanford Digital Economy Study.

Stack Overflow Blog — AI vs Gen Z: How AI has changed the career pathway for junior developers

−30%

Vagas de estágio em tecnologia desde 2023. 70% dos gestores de contratação acreditam que a IA já faz o trabalho de um estagiário com competência suficiente.

Rezi — The Crisis of Entry-Level Labor in the Age of AI (2024–2026)

A conta é fácil: uma licença de assistente de código custa $10–$39 por mês. Um junior nos EUA custa $70k–$90k por ano, mais seis a doze meses até gerar valor real. As empresas estão otimizando. Faz sentido no curto prazo.

O problema é o prazo seguinte.

O modelo tradicional de formação era quase medieval: o sênior arquitetava, o junior implementava, e pelo atrito diário de code reviews e problemas reais o conhecimento se transferia. O junior de 2024 era o arquiteto de 2032. Essa cadeia foi cortada. A McKinsey projeta escassez de até 14 milhões de desenvolvedores seniores até o final desta década se o ritmo de formação não for reinventado. A empresa que economizou $90k cortando um junior em 2025 pode estar comprando uma crise de liderança técnica que vai custar muito mais em 2035.

O degrau mais baixo da escada foi removido. A escada ainda existe.

Para os times que continuam crescendo nesse cenário, a saída não é esperar a formação se reinventar — é automatizar o trabalho repetitivo que não exige julgamento e concentrar o time humano nas decisões que realmente custam caro quando erram.


O que os bootcamps não estão contando sobre IA como diferencial

Quando a IA explodiu, muitos bootcamps pivotaram para "Engenharia de Prompt" e "Integração de IA." Faz sentido como estratégia de marketing. Mas uma pesquisa com lideranças de engenharia de ex-Meta, Netflix e startups avançadas mostrou que:

88%

Dos gestores não consideram habilidades de IA generativa como diferencial de contratação. A justificativa: ferramentas mudam a cada trimestre. "Saber usar IA" vai ser tão basal quanto saber pesquisar no Google.

Reddit r/codingbootcamp — Exclusive ex-Meta Engineering poll results

O que eles continuam procurando é o que sempre procuraram: alguém que entenda o que acontece quando a abstração falha. A IA não substituiu essa exigência — ela só tornou mais visível quem tem e quem não tem.

Vender "aprenda IA e entre no mercado" para quem não tem base técnica é, hoje, uma promessa de marginalização com embrulho de oportunidade.


Como apliquei agentic engineering em produção — e o que isso mostrou

Recentemente implementei uma feature complexa no EpicFlow — a plataforma de automação de WhatsApp que desenvolvemos — em uma tarde. Antes levaria dias.

Não foi vibe coding.

Usei o Claude Code, mas com contexto específico: arquitetura do repositório, dependências existentes, regras de negócio do produto. Limitei o acesso da IA aos arquivos relevantes. E auditei cada decisão antes de qualquer commit.

Um desenvolvedor com menos contexto técnico usando a mesma ferramenta geraria código parecido. Talvez até mais rápido. Mas sem o histórico para reconhecer o que está errado numa saída que parece certa, estaria empilhando dívida invisível.

A vantagem não era a ferramenta. Era saber o que perguntar para ela — e o que rejeitar quando ela respondia.

É exatamente essa arquitetura de decisão que aplicamos quando trabalhamos com clientes em consultoria estratégica de IA: o diagnóstico do que a IA deve e não deve fazer dentro da operação específica de cada empresa.


O que muda para times que adotam IA a partir de agora

Karpathy não abandonou o conceito que criou. Ele deixou claro que era para um momento específico, com ferramentas de capacidade específica, para projetos de um tipo específico.

O que veio depois — e o que profissionais precisam dominar agora — exige mais. Não mais cliques ou mais prompts. Mais julgamento, mais arquitetura, mais responsabilidade pelo que os agentes produzem.

É mais difícil de aprender e mais difícil de vender num post. Mas é o que vai separar quem realmente entende de quem só surfou a onda.

Para equipes que querem construir essa capacidade internamente, o caminho mais rápido não é um curso de IA genérico — é um workshop estruturado a partir dos processos reais do negócio, com foco em julgamento operacional, não em features de ferramentas.

F
Fred Beneti
Co-Founder · HiveAgent

Trabalha com tecnologia e integração de sistemas desde 2008. Desde 2019, atuou diretamente em mais de 50 empresas — quase todas PMEs lideradas por founders — identificando o mesmo padrão: ferramentas adotadas antes do processo estar claro. Na HiveAgent, lidera projetos de design de agentes de IA, orquestração de workflows e workshops executivos.

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Perguntas frequentes

O que é vibe coding?

Vibe coding é um termo criado por Andrej Karpathy, criador do termo em fevereiro de 2025, para descrever o uso de IA generativa para escrever código de forma rápida e intuitiva, sem revisar cada linha produzida. Karpathy deixou claro que o conceito foi pensado para projetos pessoais e descartáveis — nunca para código de produção com usuários reais e regras de negócio que custam dinheiro quando falham.

Qual a diferença entre vibe coding e agentic engineering?

Vibe coding é geração de código por impulso, sem validação rigorosa — adequado para protótipos e demos. Agentic engineering, proposto pelo próprio Karpathy como evolução do conceito, pressupõe que o desenvolvedor mantém contexto arquitetural e julgamento técnico, usando agentes de IA como amplificadores de produtividade, não como substitutos do raciocínio. A diferença central está em quem controla o contexto e valida o resultado.

Vibe coding funciona para projetos empresariais?

Não, segundo o próprio criador do termo. Para sistemas em produção com usuários reais, a abordagem recomendada é o agentic engineering: agentes de IA operando com contexto bem definido, arquitetura prévia e validação humana nas etapas críticas. Times que adotam essa disciplina conseguem escalar entregas sem comprometer qualidade ou segurança operacional.

Por que engenheiros sênior aproveitam mais a IA do que juniores?

Uma pesquisa da Fastly com 800 desenvolvedores mostrou que engenheiros sênior entregam em produção 2,5x mais código gerado por IA do que seus pares juniores. O gap não está na geração — está na validação. O sênior identifica a consulta que vai travar o banco sob volume, o ciclo de dependência que vai explodir em três meses, a lógica de negócio tecnicamente correta mas operacionalmente errada. Esse julgamento só se constrói com histórico de erros e acertos em produção.