Um amigo meu, o William Magna — Will, pra quem é próximo — escreveu um texto que vale meia hora do seu dia.

A tese dele é simples e desconfortável: o cérebro humano tem um vício antigo de completar coisas. Cada tarefa fechada libera dopamina. E a IA pegou exatamente esse atalho cerebral, transformou em produto e te entregou de mão beijada. Cada funcionalidade que você adiciona, cada problema "resolvido", cada ideia que sai da cabeça pra tela — uma dose. Você acha que está produzindo. Está jogando videogame.

A parte que doeu foi essa:

"A pessoa desenvolveu porque conseguiu desenvolver. Ponto."

Reli três vezes.


O aha moment como virada — e como armadilha

Agora costure isso com o conceito que a gente roubou do mundo de produto: o aha moment.

Aha moment é aquele instante em que a pessoa pega um problema que vem incomodando há tempos, coloca a ferramenta na frente, e vê o problema resolver. É o estalo. A virada. A apaixonada-pela-IA acontece exatamente ali.

A gente vê esse momento toda semana nos workshops. A pessoa entra desconfiada, faz a dinâmica, resolve um problema real dela com a ferramenta, e sai com o olho brilhando. Isso é o aha moment funcionando como deveria — pegando alguém que estava no escuro e mostrando luz.

Mas tem um lado escuro, e o Will iluminou ele.

Se o aha moment libera dopamina, e a IA permite que você tenha aha moments o tempo todo, você cai numa armadilha cognitiva: continua criando coisas porque cada criação te recompensa. Mesmo que o que está sendo criado não devesse ter sido criado.

100%

Do código que a Anexya coloca em produção passa por revisão de engenharia. Zero linhas direto do Claude para produção. Usam IA pesado em prototipagem e criação — mas o que vai ao ar passa pelo crivo técnico.

O dono que ia melhorar o processo de logística e acabou construindo um software de gestão personalizado, cheio de bugs, do qual ele agora é o único responsável.

A empresa que ia automatizar um boleto e em três meses tem cinco protótipos rodando sem governança nenhuma.

O profissional que ia escrever um e-mail e saiu com um sistema de CRM em Notion conectado a quatro APIs.

Tudo isso é dopamina disfarçada de progresso. É bonito. É criativo. Não traz nenhum resultado tangível diferente do que uma ferramenta de prateleira de cem reais por mês já entregaria.


Ep. 04 — Rafael Magalhães: o julgamento que se deteriora

Rafael Magalhães no Na Colmeia Podcast — episódio 04 sobre aha moment e uso de IA na Anexya

A frase que o Rafael Magalhães, CPTO da Anexya, soltou no podcast da semana passada resume bem o ponto:

"Quanto mais aha moments você extrai, mais negligente com a camada de validação você fica."

A alavancagem e a dependência caminham juntas. Você acelera, acelera, acelera — e em algum ponto perde a noção se o que a IA está cuspindo está alinhado com o que você precisa, ou se você mesmo perdeu a capacidade de julgar, depois de três, quatro horas conversando com modelo de linguagem.

Três pontos do episódio que ficaram:

O aha moment é a virada, mas também a armadilha. Rafa contou casos concretos: a skill de documento da Anexya que padronizou a comunicação da empresa inteira, o cartão dedicatória que ele fez pra esposa. Mas também alertou: o vício no aha moment quebra o filtro de validação.

"Cem por cento do código que botamos na rua passa por revisão de engenharia." Quantas linhas o Claude escreve sozinho na produção da Anexya? Zero. Usam IA pesado em prototipagem, criação, ideação. Mas o que vai pra produção passa pelo crivo do time. Esse é o tipo de prática que separa empresa que está fazendo IA de verdade de empresa que está fazendo demo bonita.

O julgamento se deteriora ao longo do dia. Você começa uma sessão de IA com comunicação afiada, sabendo exatamente o que precisa. Três, quatro horas depois, seu julgamento já foi pras cucuias. O cérebro humano não foi feito pra atravessar contexto longo de IA o dia inteiro. Saber disso muda como você organiza a semana.

O episódio inteiro está no YouTube e no Spotify. Oferecimento de EpicFlow e Aizen CRM.


As três perguntas que filtram o trabalho real

O ponto não é parar de criar com IA. O ponto é separar criar com objetivo de criar porque consegue.

Perguntas a se fazer antes de abrir o Cursor ou o Claude amanhã de manhã:

Qual é o resultado tangível que esse trabalho precisa gerar? Se a resposta for vaga, o trabalho provavelmente não deveria começar.

Esse resultado já não está disponível em uma ferramenta pronta por cem reais? A maioria das ferramentas que as pessoas constroem com IA já existe. O aha moment de construir é real — o valor incremental, muitas vezes não.

Se eu parar amanhã, isso continua de pé sozinho ou só funciona enquanto eu estiver dirigindo? Automação que depende do criador para rodar não é automação — é trabalho com atraso.

São perguntas chatas. Mas filtram bem a diferença entre quem está trabalhando com IA e quem está jogando videogame com cara de trabalho.

O link do texto do Will está aqui: Você não está produzindo, está jogando videogame com IA. Vale o clique — e o Will vai estar aqui no podcast em julho.


Próximos episódios

Quarta-feira, 27/05 · 20h

Vinicius Estrela

Strategic Pricing Consultant na Cargill — IA aplicada em precificação dentro de um dos maiores grupos de agronegócio do mundo.

01/07

Mario Uliani

Líder Técnico em Soluções de IA no CPqD. Como IA está sendo desenvolvida e aplicada dentro de um centro de pesquisa de referência no Brasil.


F
Fred Beneti
Co-Founder, HiveAgent · AI Agents & Automação Estratégica

Trabalha com tecnologia e integração de sistemas desde 2008. Desde 2019, atuou diretamente em mais de 50 empresas — quase todas PMEs lideradas por founders — identificando o mesmo padrão: ferramentas adotadas antes do problema estar claro. Na HiveAgent, lidera projetos de design de agentes de IA, orquestração de workflows e workshops executivos.

LinkedIn →

Sua empresa está criando com IA por objetivo ou por dopamina?

A consultoria da HiveAgent começa exatamente aqui: mapeando o que vale o esforço, o que já existe pronto, e onde IA gera retorno mensurável — não apenas aha moments.

Falar com a HiveAgent

Perguntas frequentes

O que é aha moment no contexto de IA?

Aha moment é o instante em que a pessoa pega um problema que vem incomodando há tempos, coloca a ferramenta na frente, e vê o problema resolver. No contexto de workshops de IA, é o momento em que alguém que entrava desconfiante resolve um problema real com a ferramenta e sai com o olho brilhando. Usado bem, leva alguém do escuro para a luz. Usado sem critério, se torna armadilha cognitiva: a pessoa continua criando porque cada criação libera dopamina — mesmo que o que está sendo criado não devesse ter existido.

Por que o aha moment pode ser uma armadilha ao usar IA?

Porque libera dopamina, e a IA permite aha moments o tempo todo. O resultado: você continua criando coisas porque cada criação te recompensa, mesmo que o que está sendo criado não devesse ter sido criado. Exemplos concretos: o dono que foi melhorar logística e construiu um software de gestão cheio de bugs; a empresa que ia automatizar um boleto e em três meses tem cinco protótipos sem governança; o profissional que ia escrever um e-mail e saiu com um CRM conectado a quatro APIs. Tudo isso é dopamina disfarçada de progresso.

Como separar produtividade real de dopamina disfarçada ao usar IA?

Três perguntas antes de abrir o Claude ou o Cursor: 1) Qual é o resultado tangível que esse trabalho precisa gerar? 2) Esse resultado já não está disponível em uma ferramenta pronta por cem reais? 3) Se eu parar amanhã, isso continua de pé sozinho ou só funciona enquanto eu estiver dirigindo? São perguntas chatas — mas filtram bem a diferença entre trabalho real e videogame com cara de trabalho.

Como a Anexya usa IA na prática sem cair na armadilha da dopamina?

Cem por cento do código que vai para produção na Anexya passa por revisão de engenharia — zero linhas direto do Claude em produção. Usam IA pesado em prototipagem, criação e ideação. Mas o que vai ao ar passa pelo crivo do time técnico. Além disso, o CPTO Rafael Magalhães identificou que o julgamento se deteriora após sessões longas com IA — o que mudou como a equipe organiza a semana de trabalho para preservar o filtro crítico.